Os
100 maiores discos da música brasileira
A discussão sobre quais são os grandes discos da música
brasileira é um tema mais dinâmico do que é possível
supor. É notório que as perspectivas de apreciação
se modificam em curtos períodos, mas é natural que existam algumas
unanimidades difíceis de se desbancar. Em uma votação
sem precedentes na imprensa nacional, a RS Brasil convocou estudiosos, produtores
e jornalistas para eleger os maiores discos de nossa música em todos
os tempos. A cada um dos 60 eleitores, foi solicitado que escolhesse 20 discos,
sem ordem de preferência. Os critérios analisados incluíram
valor artístico intrínseco e importância histórica.
Todos os votos foram somados e resultaram em uma lista de 100 discos essenciais;
os dez primeiros - e suas capas (galeria de imagens) - estão reunidos
aqui no site.
1. Acabou Chorare
Novos Baianos (1972 • Som Livre)
Não é de se espantar que sejam os Novos Baianos os grandes vencedores
de uma lista feita em 2007 sobre os maiores álbuns da história
da música brasileira. Longe de serem definitivas, eleições
como esta são muito mais eficientes como espelho do tempo em que foram
feitas do que como avaliação imutável da importância
artística das obras em questão. E, é fato, não
há nada mais sintonizado com o modus operandi da geração
anos 2000 (ou, ao menos, com o método de criação da fatia
mais interessante dela) do que a filosofia coletiva, hippie e sem hierarquias
proposta desde sempre pelos Novos Baianos. É assim que trabalham hoje,
por exemplo, a Orquestra Imperial, o +2, o Instituto, os Tribalistas.
Também tem relação direta com o grupo de Moraes, Baby,
Pepeu, Boca, Galvão, Dadi, Jorginho, Baixinho e Bolacha o retorno triunfal
do samba ao centro do interesse estético de quase todas as cantoras
surgidas na última década: Vanessa da Mata, Céu, Roberta
Sá, Mariana Aydar, muitas. Todas elas chegaram à cena musical
com o terreno – que outrora era fértil apenas para o rock – já preparado
para o samba. E muito disso se deve, sem sombra de dúvida, à releitura
que vem sendo feita por Marisa Monte, cantora de entrada irrestrita na juventude
de classe média, desde pelo menos 1996 (“A Menina Dança",
faixa de Acabou Chorare, foi regravada pela cantora carioca no disco Barulhinho
Bom, daquele ano).
Obra-prima dos Novos Baianos, Acabou Chorare nasceu do choque entre o grupo
e João Gilberto (engana-se quem imagina que a influência musical
foi unilateral. Vale ouvir João Gilberto, o 47º colocado desta
mesma lista, e perceber imediatamente que se trata do outro lado de uma mesma
moeda.) Depois de um primeiro disco semitropicalista, um tanto psicodélico
e essencialmente roqueiro gravado em São Paulo (É Ferro na Boneca,
de 1970), a trupe se mudou de mala e cuia para o Rio de Janeiro e por lá se
instalou. Luiz Galvão, letrista dos Novos Baianos, conhecia o pai da
bossa nova desde a adolescência em Juazeiro e retomou o contato assim
que pisou na Cidade Maravilhosa. Por algum motivo inexplicável, João
se identificou com a turma de hippies e logo começou a freqüentar
o, digamos, “alojamento" onde eles moravam. De cara, apresentou
ao grupo um samba que, mal sabiam eles, se tornaria a peça-chave da
transformação sonora que viria em 1972.
“
Brasil Pandeiro" foi composto nos anos 40 por Assis Valente especialmente
para Carmen Miranda cantar, e fez quase tanto sucesso na época quanto
faria trinta e poucos anos depois. A indicação do samba antigo
vinha com um recado mais profundo: “Voltem-se para dentro de vocês
mesmos", disse João Gilberto ao grupo. Sob essa brutal influência,
Acabou Chorare foi composto e gravado. A faixa-título do disco, aliás,
teve como fonte inspiradora uma história que João contara a Galvão
pelo telefone e que depois ficaria famosa. Quando ainda era bem pequena, sua
filha, Bebel, costumava falar um idioma híbrido, misturando o português
de sua terra natal com o espanhol que aprendera durante o período em
que morou no México com os pais. Única filha, ela estava sempre
coberta de todos os cuidados possíveis. Num escorregão que levou
certa vez, quando viu que toda a família vinha para cima dela ver se
ela havia se machucado, a menina disparou: “Acabou chorare!". A
canção ficou entre as mais tocadas nas rádios de todo
o Brasil por mais de 30 semanas consecutivas. Mas o maior sucesso do disco
foi mesmo “Preta Pretinha", música de Moraes Moreira feita
sobre os versos que Galvão havia escrito para uma menina de Niterói
que o havia deixado na mão.
De resto, qualquer mérito que não tenha sido dado a excelência
de Acabou Chorare quando o disco foi lançado acabaria sendo devidamente
reconsiderado com o correr do tempo. Aos 35 anos, faixas como “Mistério
do Planeta", “A Menina Dança", “Tinindo Trincando" e “Besta É Tu" estão
em seu melhor momento. E o fato de elas terem ajudado Acabou Chorare a conquistar
pela primeira vez o topo de uma lista dos melhores discos brasileiros de todos
os tempos só serve para confirmar isso.
Por Marcus Preto